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17/04/2006 15:44
Da Série : "Cachorro, só presta Grande !" :

Finalmente, em João Pessoa/PB (Ufa!)
enviada por edy
05/04/2006 09:51
Da Série : "Elinaldo Rodrigues"
Segue abaixo carta do escritor, professor e ex-deputado paraibano Agassiz Almeida ao presidente argentino Néstor Kirchner, em que trata da homenagem ao povo daquele país pela luta contra a ditadura militar que está completando 30 anos. A carta também é motivada pelo lançamento do próximo livro do escritor, "A Ditadura dos Generais Estado militar na América Latina". Além do Brasil, onde sairá pela Bertrand Brasil nos próximos meses, a obra também será lançada na Argentina. Agassiz Almeida é autor dos livros "500 anos do povo brasileiro" (Paz e Terra, 2001) e "República das Elites" (Bertrand Brasil, 2004). Com o perfil de revolucionário social, Agassiz criou faculdades e ligas camponesas antes de ter o seu mandato de deputado estadual cassado pelo regime militar brasileiro e ser preso na Ilha de Fernando de Noronha, na década de 60. Duas décadas depois pontuava como deputado federal na Assembléia Nacional Constituinte, em 1986. Além de ter combatido as ditaduras militares latino-americanas lutou contra as ditaduras de Franco e Salazar. Desde 1990 deixou a vida pública para se dedicar aos estudos, pesquisas e produção literária.
Grande abraço,
Elinaldo Rodrigues
Jornalista DRT/PB 1028
Paraíba, 24 de março de 2006
Excelentíssimo Sr.
Presidente Néstor Kirchner
Palácio "Casa Rosada"
Buenos Aires
Argentina
Presidente,
Trinta anos nos separam do ano de 1976, quando sobre a nação Argentina desabou a mais cruel e infame ditadura já desfechada na América Latina.
Daqueles trágicos acontecimentos irrompidos pela fúria militaresca, vi povos aterrados. Vi gerações trucidadas na suas utopias. Vi a liberdade arrastada aos calabouços militares. Vi a cara terrível do tirano vomitar ódio ao responder cinicamente, quando perguntado por um ente querido onde se encontrava o cadáver do filho: "Deve estar em Cuba". Vi aquele outro tirano de Córdoba, quando o pai suplicou pelo corpo da filha, sinistramente uivou: "Não devolvemos cadáveres". Vi a união infame de ditadores sob a denominação de "Operação Condor", seqüestrar, torturar, assassinar e lançar no ignoto milhares de corpos. Vi o heroísmo de uma juventude imolado.
Olhando sob um olhar histórico aqueles tempos, podemos visualizar o quanto se produziu de monstruosidade contra os povos latino-americanos. Milhares de vidas ceifadas e lançadas num caldeirão de torturas infames e mortes terrificantes num quadro dantesco que ultrapassou o próprio nazismo.
Um grito de liberdade e de justiça desferido por seu altaneiro governo trouxe à Plaza de Mayo, em Buenos, no dia 24 de março, milhares de pessoas num brado de condenação contra aqueles tipos humanos que à sombra do Estado-militar perpetraram atrocidades excrescentes contra os seus povos, até então desconhecidas nos anais da história do homem.
Que vultos sinistros atravessaram a cena histórica da América Latina nas décadas de 60, 70 e 80?
E hoje o que vemos? Os tiranos se afundando no opróbrio da história: de Mussolini a Jorge Videla, de Hitler a Benjamim Menendéz, de Ernesto Geisel a Pinochet, de Médici a Emílio Massera.
E o que esses tiranos e torturadores carregam hoje perante a História? O peso da consciência do mundo.
O Holocausto judeu foi devastador. O Genocídio da juventude latino-americana foi satanicamente desumano: assassinou as inteligências mais altivas daquelas gerações.
Presidente Néstor Kirchner, em 1984, estive em Buenos Aires com o escritor Ernesto Sabato e dele recebi a obra "Nunca mais". Uma "Ilíada" de dor e indignação sobre a sinistra ditadura militar que desabou sobre o povo argentino nos anos de 1976 a 1983. Disse então a este grande pensador: Mestre, me comprometo a pesquisar e escrever uma obra de análise sociológica e histórica acerca do nazimilitarismo que dilacerou a América Latina. Sorrindo ele pôs as mãos nos meus ombros e falou: "Vamos construir destinos". Assim nasceu o livro "A ditadura dos generais". Nele visualizo sob uma visão sócio-histórica as causas do militarismo e os agentes militares que se moveram desde as primeiras décadas do século XX, provocando terrível fenômeno humano.
De maneira lenta, vinha elaborando este livro, no entanto com as novas diretrizes que Vossa Excelência imprimiu aos destinos do povo argentino vi-me impelido a terminar a tarefa que me impus, e afinal, conclui esta obra.
O povo argentino por suas mãos reencontra as liberdades, e muito mais ainda, com o sentimento de justiça, malbaratado por sucessivos governos, que se acumpliciaram com os genocidas da hidra militar.
À frente do governo, Vossa Excelência dimensionou a grandeza de um povo, à altura de um Domingo Sarmiento, no século XIX.
Na ocasião do meu encontro com o grande pensador Ernesto Sabato, me comprometi que a obra "A ditadura dos generais" seria lançada no Brasil e na Argentina.
Este livro é um estudo e análise do nazimilitarismo. É também um grito de desabafo que se faz eco a tantos milhares de prantos sufocados por tiranos que ensangüentaram os chãos da pátria-América.
Do Holocausto judeu o ano 2005 marcou sessenta anos.
O ano 2006 criava trinta anos do Genocídio que abateu sinistramente no solo argentino uma geração pujante de grandeza e energia. Vossa Excelência com visão histórica emblematizou o dia 24 de março como a data de uma tragédia que engolfou a nação Argentina numa negra e terrível tirania, mais degradante do que o próprio nazismo.
Para milhares de seres humanos que sangram a dor enorme, das torturas e mortes, uma jovem em Buenos Aires deixou estas palavras: "Não acreditamos nas autocríticas dos militares. Não esquecemos. Não perdoamos. Não nos reconciliamos".
Sob o seu governo, os déspotas militares estão a receber o peso da Justiça.
No Brasil eles se glorificam sob o manto de um silêncio cumplicioso.
Aqui, na pátria de Castro Alves, os arquivos negros da ditadura permanecem vedados ao julgamento da história.
A história dos povos tem a marca e a ação dos estadistas. O povo argentino vive um supremo momento de resgate histórico, pelo alto descortino do seu governo.
Saudações latino-americanas
Agassiz Almeida
Escritor
e-mail: gicirne@hotmail.com
Agassiz Almeida
enviada por edy
31/03/2006 17:24
"Da Série : Atitude"
PELO DIREITO DE QUERER MENOS
By Hermano Viana (PUBLICADO NO CADERNO AMIS DA FOLHA DE SP)
Nos últimos anos, não é mais possível andar pelas ruas de Londres sem se deparar, em todos os lugares, com uma loja de sanduíches da cadeia Prêt-A-Manger, recinto de look pós-moderno onde podemos ter toda uma nova experiência fast-alimentar. As massas do mundo "desenvolvido" se sofisticaram demais para continuar consumindo hamburgers e coca-colas, mesmo quando estão com pressa. Não fica bem, nem um pouco bem, serem surpreendidas num McDonald's, que não contente de ter fama de gerador de enfartes ainda é acusado de destruidor de florestas tropicais. Além disso, essas massas já foram doutrinadas a gostar de rúcula, tomate seco e capuccino - portanto seus novos paladares não admitem mais aqueles sabores rudes que um dia encantaram a sociedade de consumo em seus tempos primitivos, pré-digitalizados e pré-globalizados.
Ser massa hoje, num país de primeiro mundo, é bem mais complicado. Nada de prazeres fáceis e vulgares, nada de indústria cultural, nada de gostar do que é igual para todos. Agora todo mundo tem que ter personalidade e bom-gosto - sempre definidos por seu padrão de consumo. O produto de massa contemporâneo vem com outra embalagem, para fingir que não é de massa, para aparentar que foi feito só para você, consumidor especial que sabe o que quer, e que para comprar o que quer tem que exercitar o tempo todo o seu sagrado direito da escolha - escolhendo sobretudo algo que o distingue dos outros mortais e atua como seu passe VIP para fora do tão-mal-falado-lugar-comum. Ninguém mais quer estar em nenhum lugar comum, todo mundo quer ser diferente, e ser diferente é chique.
Portanto, o novo McDonald's é o Prêt-A-Manger, até porque a cadeia da nova fast-food foi mesmo comprada pelo McDonald's. Mas é uma fast food envergonhada, que salpica tudo - da decoração à bandeja - com "estilo" e "filosofia". Logo na vitrine, ou na home do web site, quem entra lê: "Nós percorremos distâncias extraordinárias para fugir dos obscuros aditivos, preservativos e agentes químicos comuns na maioria da "fast" food "prepared" que está no mercado hoje em dia." O aviso "filosófico" ainda diz que todos os ingredientes contidos nos sanduíches e nas bagettes (é claro...) chegam frescos nas lojas todos os dias, e os sanduíches e as bagettes (é claro...) não comidos naquele mesmo dia são doados para instituições de caridade.
Fico imaginando os mendigos, que também são sofisticados no primeiro mundo, escolhendo entre um Crayfish and Avocado Salad e um Black Pepper Chicken on Bloomer Bread, que podem ser servidos nas opções Nut Free, Sesame Free, Dairy Free, ou GM Free (GM Free, para quem não sabe - como eu não sabia, significa que o sanduíche não contém nenhum ingrediente Geneticamente Manipulado, isto é, nada de soja ou milhos transgênicos nem nenhum de seus derivados). Para facilitar também as escolhas dos sem-teto britânicos - e agora também de Nova York, Hong Kong, Tóquio e breve de todas outras cidades "desenvolvidas" do mundo - as embalagens contêm informações sobre valores de proteínas, de fibras, de gorduras (saturadas ou não), de carboidratos (dentre eles a quantidade de açúcares). Um educado lembrete diz que "já que quase todos os produtos Pret são feitos todos os dias a partir de ingredientes frescos os valores nutricionais são apenas médias." Assim a empresa evita também que algum mendigo, ou consumidor elegante, a processe no futuro alegando que na sua bagette havia 2% mais carboidratos do que os "propagandeados".
Ao ver tanta opulência numa simples lanchonete não pude deixar de suspirar pensando no meu querido e coitado Terceiro Mundo. Aquilo tudo pode existir ali porque em algum lugar do mundo não existe nada parecido. Isso é matemática de primeiro grau. O planeta não tem recursos suficientes para proporcionar esse padrão de consumo de massas para todas as suas massas. A Terra se esgotaria com quilômetros de plantação de rúcula orgânica de perder de vista e toneladas de tomates limpinhos (de preferência lavados com água mineral Evian...), secando ao sol para depois serem tratados com azeite extra-virgem preparado artesanalmente... (Isso para não falar nos direitos trabalhistas nível comunidade européia que são pagos para quem prepara cada sanduíche daqueles todos os dias!) Não cabe no mundo isso tudo para todos. Não que não fosse bom caber. Mas não vai ter Fome Zero mundial que, nas atuais condições tecno-científicas da engenharia agronômica, vá produzir riqueza o bastante para alimentar o desejo de Crayfish e Avocado Salad (com molho thai, por favor) de toda a população do mundo, se ela vier a desejar tal coisa (como periga desejar se esse estilo de "sofisticação" continuar a se alastrar nessas proporções epidêmicas - como têm se multiplicado assustadoramente, por exemplo, as máquinas italianas de fazer café).
Isso porque estou falando "só" de comida. Imagine que espaço sobraria no mundo se todo mundo tivesse uma casa do tamanho e da "sofisticação" do tipo das que aparecem na Caras ou na Wallpaper (nada contra a Caras... nada contra a Wallpaper...) Ou como seria o trânsito de uma cidade como São Paulo, e os níveis de petróleo no mundo, se todo mundo pudesse ter, como todo mundo parece desejar por razões para mim inexplicáveis a não ser por mero exibicionismo, um Hummer personalizado. Tudo bem, dizem que o carro é bom, dos melhores, já foi testado em guerras no deserto... Eu acredito em propaganda militar e marketing... Mas quem precisa mesmo dele? Quem, em sã consciência, trocaria um bom sistema transporte público por esses dinossauros - sofisticadíssimos, eu sei - cibermecânicos? Mas todo mundo, na hora H, troca a briga por um bom transporte público por um carro vistosão e grandão (coitados dos estacionamentos), se lixando para o mundo, para os outros. E cada vez massas maiores têm acesso a esses bens e vão se empanturrar com tanta sofisticação. Assim caminha o capitalismo, e o fim da história, não é mesmo? Outro mundo é possível? Só se tiver casacos da Burberrys para todos, ou relógios Bulgari para todos? Não precisa tanto: mesmo churrasco no domingo para todos já faria um estrago danado.
Tudo bem. Não quero estragar o domingão de ninguém. Todo mundo é filho de Deus, merece ter tudo do bom e do melhor que até hoje só poucos tiveram. Mas a que custo? E porque todo mundo precisa mesmo desse tipo de "bom e melhor". Não há outros "bons e melhores" bem diferentes disso que hoje as massas parecem desejar? Não vou propor nenhuma patrulha ecopolítica radical para o bem da humanidade. Mas não consigo deixar de achar que o mestre Agostinho da Silva estava coberto de desafiadora razão quando escreveu querendo algo bem distinto disso tudo:"Mas eu quero ver o primeiro homem que não deseja coisa nenhuma! Nunca fazemos treino para isso e, pelo contrário, todo mundo está organizado [...] para desejar alguma coisa mesmo quando não deseja. [...] Quer dizer, o mundo, na fase atual, está continuamente a semear desejos em nós, sendo esse um dos pontos mais importantes do mundo - como é então que podemos chegar a uma economia que não semeie em nós o desejo, mas sim a quietação e não a inquietação". Grande questão, talvez a maior de todas: por que economia tem que ser inquieta por definição?
Agostinho da Silva não era bobo. Ele sabia que foi a partir desse tipo de desejo que todo um parque industrial foi construído para produzir tantas coisas, e que é só por causa desse avanço tecnológico que podemos hoje pensar numa alternativa "quieta". Sei que a pregação desse quietismo solidário soa ingênua, comunista, franciscana, reacionária (contra o "progresso"), moralista ou mesmo obscurantista. Parece um sonho do "vamos nos dar as mãos agora e trocar o luxo de poucos pelo simples e necessário para todos." Só uma mudança tremenda de mentalidade (Agostinho da Silva esperava o Quinto Império, com o Espírito Santo nos iluminando...), da concepção de "desenvolvimento" (para o Brasil se "desenvolver" precisamos mesmo derrubar as florestas e plantar soja?"), ou mesmo da natureza humana, poderia colocar em cheque essa cruel máquina de fabricar inveja, eterna insatisfação e desejos sempre maiores? Desejos por quê? Por uma bolsa Louis Vuitton?!!!
Também acho que não sou totalmente bobo. Consigo evidentemente admirar a beleza de uma bolsa Vuitton desenhada por Takashi Murakami. Acho bacana, bem potlach, que alguém gaste tanto dinheiro para comprar essa bolsa - adoro ver gente queimando dinheiro, quanto mais dinheiro melhor. Mas também sei que o mundo poderia viver muito bem sem essa bolsa (ou que o preço de uma bolsa boa e bonita poderia ser infinitamente mais barato), e não seria um lugar menos interessante por isso. E então não consigo evitar de sempre ver que há algo de podre (a tal cruel máquina de reprodução de inveja, insatisfação e também humilhação) na bolsa Murakami, no sanduíche do Prêt-A-Manger (por mais frescos que eles sejam), ou na hipnótica branquidão dos lençóis de algodão egípcio do Hotel Fasano (isso para não falar no assento térmico da privada do Emiliano).
Sempre vai ter alguém que tem mais, ou vai ter um produto novo - e glamurosamente caro - que você não tem e não pode ter (e o fato de você não precisar ter não tem a menor importância, quando o desejo de ter é o que move tudo). Um restaurante de luxo vai ter que sofisticar e encarecer sua culinária se quiser se manter "acima" dos fast-food sofisticadíssimos que o sucesso de massa do Prêt-A-Manger e do café italiano apenas anuncia de forma tímida e canhestra (ninguém realmente "sofisticado" come no Prêt-A-Manger). Com as massas do primeiro mundo cada vez ganhando mais dinheiro, uma loja como a Prada vai ter que aumentar constantemente e astronomicamente seus preços a cada estação se quiser manter o interesse de uma clientela que compra não produtos mas sim exclusividade, aquilo que todo mundo não pode comprar. Pois sem exclusão, nada disso existiria: se uma roupa é usada por qualquer um, ela necessariamente - no regime de moda no qual vivemos - perde o seu charme. E assim por diante: se todo mundo puder comer nesse restaurante, dormir nesse hotel, viajar nessa primeira classe, todo esse mundo desmoronaria. É preciso deixar sempre gente de fora para a festa da sala VIP ser animada.
O que estou pregando então? Uma comunidade hippie globalizada? Uma nova revolução cultural maoísta? Pretinhos básicos, e nada mais, para todas as moças? Nada disso parece ter dado muito certo, não é? Porque todo mundo está ficando cada vez mais louco ao consumir e não há - até segunda ordem - plano de fuga no shopping center planetário (fugir para onde? até em Cuba as pessoas se jogam no mar revolto só para fazer compras em Miami... e mesmo no Butão, que não tinha TV até os anos 90, agora já tem internet...). Então esta é minha única maneira de terminar este texto com um elegante otimismo: quero apenas menos, um pouquinho menos. Vocês que são brancos, e precisam realmente comprar isso tudo, que se entendam. Não vou nem concluir dizendo que tudo isso me parece um pouco cafona (o que seria muito óbvio - até porque eu gosto de brega!), não vou nem insinuar que não é mais nem um espetáculo interessante contemplar o barulho produzido por tanta insatisfação (e acho que mesmo estratégias situacionistas de desconstrução desses desejos apenas aumentam o barulho, e a quantidade de coisas e ações que atravancam o mundo...) Como diz o Wado, numa canção que adoro: eu vou ficar quietinho, eu vou ficar no meu canto. Talvez essa seja a atitude mais radical.
enviada por edy
21/03/2006 10:56
Da série : "Vai vendo...."
FALCÃO - MENINOS DO TRÁFICO
Minha história eu mesmo conto, relata o produtor do documentário Celso Athayde
Em depoimento exclusivo à CARTA MAIOR, parceiro do rapper MV Bill discorre sobre projeto exibido no Fantástico. "O filme é para isso. Para contar nossa história do jeito que a gente acha que deva ser contada. Não é para resolver os problemas da favela".
Nelson Breve - Carta Maior
RIO DE JANEIRO - As armas são de brinquedo. A maconha é de eucalipto. O pó, de algum bagulho parecido com talco. A brincadeira das crianças das favelas é inspiradas no mundo do tráfico. Pó de dez, pó de dez, eles apregoam na boca de fumo de mentira. Na encenação tem a turma do arrego, que recebe o suborno para não denunciar nem prender o bando de traficantes fictícios. Logo depois, eles capturam um X-9, que alcagüetou os amigos para a quadrilha rival. O vacilão está pronto para ser executado, quando a turma de garotos ouve a rajada de tiros de verdade. Ali do lado do cenário da brincadeira a execução era real.
Com cenas como essa, exibidas neste domingo (19), no Fantástico, o documentário Falcão Meninos do Tráfico manteve em estado de choque, por mais de uma hora, muitos milhões de lares brasileiros. Foi uma descarga de realidade sem precedentes na televisão brasileira, talvez mundial. A vida dos garotos que protegem as favelas dominadas pelo tráfico é desumana. Falcão parece um passarinho que não dorme à noite, diz o garoto com a imagem do rosto desfigurada para evitar a identificação. Arma pesada na mão ele aparenta ter 14 ou 15 anos.
Os falcões aparecem aos bandos no documentário. Dos mais jovens até o que acaba de fazer 18 anos e não sabe o que fará quando tiver de sair da boca. Quando o rapper MV Bill pergunta ao garoto, que não deve ter mais que 11 anos, o que ele quer ser quando crescer, a resposta vem rápida, sem vacilação: Quero ser bandido. No outro extremo, o Falcão que sente a falta da mãe chora ao lembrar que desde pequeno queria ser palhaço. A mãe prometia levá-lo ao circo, mas nunca conseguiu cumprir. Eu queria é ser palhaço. É meu sonho desde pequeninho. Se conseguisse entrar em uma escola de circo, saía da boca agora.
São inúmeras as imagens e depoimentos chocantes do documentário. Sobre as drogas: Isso aqui destrói a vida do homem. Destrói o cara que ele não vira nada. Mas é dele que nós ganha dinheiro. Sobre a polícia: Se acabar o crime, acaba a polícia. Porque quem dá dinheiro pra polícia somos nós. Se acabar o tráfico de drogas eles vão ficar massacrados. Sobre a favela: A realidade da vida é que o bagulho é doido. A realidade da favela é que o bagulho é doido. Sobre o governo: Sou um cara que nem era pra tá aqui. Mas isso aí é o que o governante quer. Não liga pra nada. Sobre as mães: Eu trafico pela minha mãe. Minha mãe fez tudo por mim, agora tenho que fazer alguma coisa por ela. Sobre os pais: Não conheci meu pai, não sei se tá vivo ou se tá morto. Tenho 17 anos e, até hoje, nunca tive um aniversário. Ninguém fez um aniversário pra mim. Sobre a morte: Se morrer, nasce outro que nem eu, pior ou melhor. Se morrer, vou descansar.
O documentário feito por MV Bill e seu produtor, Celso Athayde, choca pela realidade crua. Mas choca mais pela constatação de que esse câncer da sociedade brasileira não terá fim. A mãe chora a morte do filho, que morreu quase menino, mas deixou outra criança no mundo. Quem sabe para substituir outro Falcão daqui alguns anos. A outra mãe conta aflita como o filho que ainda não completou 3 anos de idade já conhece a realidade do tráfico: Ele sabe o que é fuzil, o que é maconha, diz que é pó de cinco, pó de dez.
Na quinta-feira, CARTA MAIOR conversou com os dois responsáveis pelo documentário. A entrevista com MV Bill, publicada na sexta-feira, teve grande repercussão ao antecipar a dramaticidade das imagens que seriam exibida pelo Fantástico. Foram mais de 300 comentários de leitores, um recorde absoluto. O depoimento a seguir, é uma edição da conversa com Athayde, na qual ele explica o contexto do projeto Falcão e de suas implicações:
Lula é tão culpado quanto eu
"Falcão Meninos do Tráfico" é um filme produzido pelo centro de audiovisual da Central Única das Favelas (CUFA), onde vários outros são filmados e editados por jovens das comunidades. É um filme feito sem apoio de ninguém. O João Moreira Sales [diretor do documentário Notícias de uma Guerra Particular] e o Fernando Meirelles [diretor do filme Cidade de Deus] são ricos, mas conseguem dinheiro para fazer o filme que quiserem. Com recursos da lei de incentivo à cultura, que são recursos de toda a sociedade.
O jovem da Cidade de Deus não consegue o mesmo incentivo para contar a sua história. Os cineastas ficam ricos e depois vêm ganhar dinheiro com nossa própria miséria. Não dá para ficar trocando nossos sorrisos cheios de cárie por bala Juquinha. Contrapartida social não é dar um R$ 1 milhão para o João Moreira Sales fazer um filme e depois dar R$ 200 mil para a favela ver o filme de graça. É dar condição para ele fazer o filme dele e para nós fazermos o nosso.
Mas a CUFA não é para ficar reclamando. Já que não tem dinheiro, que o Estado não financia, vamos à luta para dizer que a gente consegue fazer. E consegue fazer com um elemento que o Fernando Meireles jamais vai ter, que é o nosso sentimento.
O filme é para isso. Para contar nossa história do jeito que a gente acha que deva ser contada. Não é para resolver os problemas da favela. O filme surge no conceito faça você mesmo. Não sou diretor, não sou escritor, mas minha história ninguém vai contar. Eu mesmo conto. Cacá Diegues pode ser meu amigo e me ajudar, mas não vai fazer.
O que aconteceu com o Samba. Era uma manifestação originada dos escravos negros, que inclusive era reprimida. Aí, o homem do asfalto vem e legitima o samba. Troca o nome do barracão e chama de ateliê. Pega os pretinhos para tocar sem ganhar um tostão. Transforma em uma indústria que beneficia justamente aqueles que fazem a opressão contra os sambistas. O dinheiro não vai para quem criou aquele mercado. Não é o caso de acabar com o samba, mas é justo que o dinheiro retorne para aquela cultura. Como é que você pode ter a família do Cartola passando fome e o Carnaval jorrando dinheiro?
É esse tipo de coisa que nos faz uma raça inferior coletivamente. Quando você tem um movimento de branco é chamado de racista. Movimento negro é protegido pelo governo. Mesmo entre os que nascem na favela há diferença entre pretos e brancos. Um tem a cor do poder. Fora da favela eles são diferentes. Nas favelas, os mercadinhos e as biroscas são dos brancos, também. Eu mesmo já me surpreendi imaginando em um velório que o preto morto baleado era de alguma comunidade, quando, na realidade, era um policial. Esse movimento vem dizer para esses jovens que a gente não vai aceitar mais p... nenhuma.
Esse filme é isso. Ele não aponta caminhos. Denuncia sem falar. Ele diz que chegamos no fim. E não adianta buscar culpados. Não se pode dizer que a culpa é do presidente, dos ministérios, dos governadores ou dos prefeitos. A culpa é da sociedade brasileira. Podem dizer que a generalização deixa a responsabilidade mais distante, mas também não dá para personalizar. Lula é tão culpado quanto eu. Não começou no governo dele e não vai terminar no governo dele. Mas está proliferando. Não adianta ONG nos morros. O trabalho delas é muito insuficiente. Na Rocinha tem 50 mil crianças.
O projeto Falcão não é para discutir Segurança Pública. É para criar uma consciência. A grande maioria desses jovens é de negros que não têm pais, sustentam suas famílias com dinheiro do tráfico e morrem antes dos 16 anos. Falam que ganham R$ 1 mil por semana. É mentira. Ganham R$ 350 por mês. Quando são enterrados fazem vaquinha. Chefão do tráfico é preso descalço ou de chinelo.
Segurança pública é só a porta, as conseqüências de uma série de problemas que são ignorados ou são impossíveis de resolver. Se é impossível, vamos jogar a toalha e fechar as portas porque nós estamos inviabilizando o Brasil. Se não conseguem dar dignidade para os velhos e para os jovens é porque o país está inviabilizado. Se tem um câncer irreversível, depois de procurar o médico, ou jogamos a toalha ou vamos atrás dos remédios para conseguirmos a cura. A cura depende de reforma agrária, de distribuição de renda, da cultura, da educação, do fim do preconceito racial.
O que este documentário mostra é que não tem saída. Se é preciso o caos para se começar o novo mundo, a hora é agora. O caos já chegou. Só não está vendo o caos quem mora no asfalto. Ficam todos indignados quando uma bala perdida atinge um prédio fora da favela. Filmam os buracos, entrevistam os moradores, os vizinhos. O que eles não mostram é que até a bala chegar naquele prédio, ela já furou 400 barracos. Isso não é notícia. Estamos falando de HK47, M16. São balas que atravessam barracos de papelão e madeira com a maior facilidade. Todo dia fura parede e fura corpo de gente preta e pobre. E isso não é notícia.
A Globo tem os interesses dela e nós temos os nossos. Não estamos usando esse espaço por ser ingênuos. Não tem favor. Tem interesse. Para mim é um espaço que será usado em uma lógica que me atende. O documentário poderá ser visto por 135 milhões de telespectadores. Não importa que a emissora não tenha entendido nada anos atrás, quando nos processou. O Willian Waack só faltou chamar o Bill de bandido. Eles esqueceram, mas eu não. Eu falo disso no livro.
O que importa é que eles nos ajudem a alcançar nossos objetivos. É para isso que a gente existe. Trazer ovelhas para o rebanho. Seria ótimo que o Antonio Ermírio de Morais viesse participar e ter uma consciência social. A luta do movimento social é para isso também. Não vamos resolver nenhuma questão se elas não forem discutidas.
enviada por edy
02/03/2006 11:40
Da Série : "Quarta-feira de cinzas.."
Ontem peguei pela primeira vez na alça de um caixão....
enviada por edy
26/01/2006 15:26
Da Série : "Nunca mais a gente se falou.."
As últimas em frases curtas :
- Show muito divertido com o Scary Monsters/Flávio cavalcanti e Wandder Wildner;
- Dã.. a gente bebeeu vinho antes de tocar..
- Tocamos com o Wander(ley) Wildner.. Festa Punk foi fds..
- Manguaça está segurando a onda no baixex do Flávio..
- O Flávio está vivo !
- Brasília foi muito legal...
- A Criolina, festa organizada pelo Barata e pelo Pezão é muito legal.. um dos melhores sons q eu ouvi em festas... sambas antigos, coisas pra dançar... muito bom.. e o pezão utiliza aqueles compactos antigos.. muito bons !
- Natinho(Kingdown Comics)/ Cafagerson(Os Cachorros das Cachorras) e Ataque Beliz deram canja no show do Chico na Criolina
- O Edu(meu irmão) é uma das pessoas mais divertidas q eu conheço...
- Na Criolina toquei com um Fender igual o do Brust do Honkers. o voluem ficou no 2 e td mundo reclamou q tava alto... Amp du K...
- Faz tempo q não bebia tanta cerveja...e em Brasília tem Antarctica Original..uhu..!!
- Sábado tem Star 61 e Los Hermanos na Praia...
- Sexta tem Musa Junkie/Flávio cavalcanti e JR espínola no Gabinete cultural !
- Visitem www.overmundo.com.br
-
enviada por edy
16/01/2006 18:52
Da Série : "Festinhas para renovar o espírito roquenrou"

..Legal a estrutura do PBPOP.. som bom pra K...
Próximas aparições; na festa supracitada e dia 28/01 com Star 61 abrindo pro Los Hermanos..
Fora do eixo... o Chico Corrêa toca em Brasília dias 21 e 23/01...
enviada por edy
05/01/2006 16:37
Da Série : Ano Novo !
RECEITA DE ANO NOVO (Carlos Drummond de Andrade)
Para você ganhar um belíssimo Ano Novo...
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na Gaveta.
Não precisa chorar de arrependimento pelas besteiras consumadas, nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de Janeiro as coisas mudem e sejam claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê- lo, tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
Um maravilhoso Ano Novo para você!
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"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi umindivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente".
(Carlos Drummond de Andrade )
enviada por edy
28/12/2005 14:30
Da Série : "Não sei o q dizer pra você..."
" E no fim do dia não há o q reclamar..! Há !?"
"O fim é só o começo de algo maior, pra poder voltar ao início".
enviada por edy
07/12/2005 12:55
Da Série : "Aquele q anda deve chegar em algum lugar. Aquele q trabalha deve se cansar..(Arnaldo Antunes)"
Pois eh.. sabe qdo vc corre, corre e o fim do ano não chega para merecidas férias..? Pois é..últimas maratonas... vaid ar td certo..!

07/12 - Chico Corrêa (versão pocket - só eu, shmoo e Larissa) tocando com LADO 2 Stéreo (PI), no Budha Pub, Ponta Negra em Natal.
08/12 - A merma parêa - Chico Corrêa e Lado 2 Stéreo no gabinete cultural, PÇa Antenor Navarro em João Pessoa.
09/12 - Chico Corrêa, tb em versão pocket, abrindo pra Nação Zumbi. Espaço Cultural.. palco principal.
10/12 - Aí q tah amigo... Recife Beats, Chico Corrêa - versão duo, eu e shmoo, 19hrs - estacionamento do Shopping Recife
(e depois correr para..)
10/12 - 22 hrs ASTRONAUTAS/STAR 61/FLÀVIO CAVALCANTI - na Seven, feirinha de Tambaú.
Fala Sério..
Depois dessa só o revival do Flávio cavalcanti e o Star 61 tocando na despedida de Claudinha na sexta q vem, dia 16/12 e o Musa JUNKIE tocando no SELAI, Pça Antenor Navarro, no sábado dia 17/12..
Aí..Só cuidar das matérias do Overmundo (acessem www.overmundo.com.br)virtualmente e "Fortaleza aí vou eu.." encontrar meu irmão.. Edu e família para Natal e Reveillon...
.. Detalhe : já tem datas marcadas para janeiro.. Mas aí.. é outro ano e jah vai estar td certo...!
enviada por edy
23/11/2005 13:09
Da Série : "Fui !"

>> X Festival de Artes Areia hj, com o Chico Corrêa, e amanhã com STAR 61 tocando cm Zeca Baleiro.. muito bom !
>> No sábado.. pô.. tocando em SP com Sonic Youth, Nine Inch Nails, Iggy Pop and the Stooges (sim, mestre !), Flaming Lips, sem falr Cachorro Grande e Nação Zumbi.. putx.. vai ser confraternização de fim de ano do roquenrou..(td bem, eu não vou pro Pearl Jam)!
Good vibes, folks !
Acessem www.overmundo.com.br para noticias de cultura de todo o país ! Na verdade um pré-site com notas e eventos. O oficial será lançado em fevereiro com muitas novidades. Acessem e tomem conhecimento do q se trata !
Abçs
Fui !
enviada por edy
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